O leitor deste livro se surpreenderá com a densidade jurídica e a sensibilidade social dos estudos de Marilia Montenegro sobre as opressões de gênero que se manifestam nesse antigo espaço de punição que continua zombando do “monopólio” weberiano: a casa. (...) Filha da luminosa civilização pernambucana, a Autora consagra o primeiro capítulo à pena privativa de liberdade, particularmente observada no Complexo do Curado, que já se chamou Presídio Aníbal Bruno. Sim, para valorizarmos as (mal)chamadas “alternativas penais” temos que começar olhando para aquilo que elas teriam como função evitar: o irreversível processo de degradação física e moral (“prisonização”) dos encarcerados. (...) Se para a Autora seus “vinte anos de pesquisa” lhe decretaram “desconforto e poucas certezas”, para o penalismo crítico os resultados daquelas investigações não apenas são reconfortantes mas sobretudo desgastam até os ossos os mitos prevencionistas. E se há algo de confessional neste livro, cabe algo confessional em seu prefácio: vamos a breve notícia biográfica de Carolina, personagem que nasceu também há duas décadas e que morreria na obscuridade se Marilia Montenegro não lhe houvesse concedido a honra de com ela dialogar.